5 de outubro de 2012

Alô?
É da Rádio ?
Queria oferecer:
"Daria tudo pra você estar aqui",
com Wanderley Cardoso.
Tudo. Tudinho!

(Caio F, Pedras de Calcutá)
 
Em verdade, o meu caminho atravessou cem almas, cem berços e cem dores de parto. Muitas vezes me despedi; conheço as últimas horas que desgarram o coração.

(Nietzsche)
 
 

Que a vida ensine que o tão ou o mais difícil de ter razão,
é saber tê-la.
Que o abraço, abrace.
Que o perdão perdoe.
Que tudo vire verbo, e verbe.
Verde, como a esperança.
A vida é substantiva, nós é que somos adjetivos.


(Crônica de Artur da Távola)

2 de outubro de 2012

Se não se foi por completo
 
a culpa não é minha,
 
e se assim permanecer
 
como é que eu vou te esquecer?
 
Se pra lembrar de você
 
...basta respirar...
                                                                 

(Silvana Oliveira)
                                                                                                                           

1 de outubro de 2012

Sintomas

- DOUTOR, ESTOU SENTINDO UMA RIMA TERRÍVEL.

- Onde é que dói?

- Às vezes, é bem aqui no peito. Às vezes, é uma pontada, aqui na cabeça.

- O que é que o senhor faz, quando dói muito?

- Quando eu não agüento mais, eu faço um poema.

- Um o quê?

- Um poema. É um espécie de mancha que dá bem no meio da página. Tem umas apavorantes. Mas também tem manchas lindas.

- E desde quando lhe acontecem esses poemas?

- Desde sempre. Desde quando, antes do ventre da minha mãe, eu fui pensado em alguma galáxia distante, por um planeta boiando na luz de um sol azul-amarelo-vermelho-verde-prata...

- Deixe-me ver sua língua.

- O senhor não leve a mal, mas é uma língua apenas portuguesa. Pouca gente no mundo já viu uma língua como essa.

- É, está feia sua língua. Mas não se incomode, que língua portuguesa ninguém presta atenção.- Não é só a língua, doutor. Às vezes, tenho visões.

- Visões?

- É, vejo círculos, quadrados, triângulos inscritos em hexágonos, e linhas, linhas, linhas...

- O senhor conhece matemática?

- Só de nome.

- É, é mais grave do que eu pensava.

- Vou morrer?

- Um dia vai. Mas antes vais ser pior. O senhor pode ficar famoso.

- Pra sempre?

- Não, quando é para sempre a gente chama glória. A fama passa.

- Ainda bem.

- Mas incomoda muito. Não tem horas em que o senhor sente que tem um estádio inteiro lhe aplaudindo de pé?

- Onde, doutor?

- Dentro da sua cabeça, é claro. Onde mais?

- Que alívio o senhor me contar isso. Pensei que estava ficando louco.

- Quem sabe? Quem sabe o que é loucura?

- Vá saber.

- Deixa eu completar os exames. Tem sentido muitos sintomas de concretismo gástrico ultimamente?

- Só quando eu vejo uma folha de letraset.

- Perfeito. Tem sentindo algum soneto?

- Só de manhã, quando eu vou dormir de estômago vazio.

- Impulsos marginais?

- Depois que fui editado pela Brasiliense, meus sintomas marginais desapareceram. Deviam ser conseqüência do abuso da solidão e do provincialismo paroquial.

- Nada de pornô, espero.

- Um filho-da-puta aqui. Um caralho ali. Porra. Cabaço. Gozar. Só essas coisinhas corriqueiras, que vovó não deixava dizer, mas estão no Aurélio.

- Entendo. Não admira que o senhor tenha tido tantos poemas recentemente. Mas vou receitar uma dieta que vai lhe deixar tão bom quanto qualquer subgerente de vendas.

- Antes disso, será que o senhor não me deixava cantar alguma coisa?

- Cantar? Mas eu não tenho nada aqui para o senhor cantar.

- Pode deixar que eu trouxe umas canções comigo.

- Cuidado. Cantar demais faz mal.

- Não se preocupe, doutor. Eu só vou cantar um pouquinho.

- Está bem. Pode começar.

- Desafinar um pouquinho, não ligue. É assim mesmo:

"Se houver céu depois da terra
e nessa estrela
a eterna primavera
pudera, tomara, que a vida quisera
que a gente se encontrara.
Proutra vida fica,
nosso amor mais louco,
fica tudo muito mais bonito,
fica a dita que faltou pro pouco,
se houver céu...
Se houver céu,
como nessa vida não há,
a gente se achou bichinha
a gente se encontrará,
a gente se encontrará..."

- Letra e música suas?

- Letra e música.

- I see. Deixa-me ver. O senhor tem algum vício?

- Eu amo uma mulher chamada Alice.

- Há muito tempo?

- A vida toda.

- O senhor é o caso mais grave de poesia que eu já vi até agora. Preciso consultar uns colegas.

- O que é que eu faço, doutor?

- Tome duas estrofes e me telefone amanhã cedo, sem falta.

[Paulo Leminski - Gozo Fabuloso]

Conta pra mim de onde a gente se conhece. De onde vem a sensação de que sempre esteve aqui,
quando eu sei que não estava. Conta por que nada do que diz sobre você me parece novidade, como se eu estivesse lá,
nos lugares que relembra, quando eu sei que não estive.
Conta onde nasce essa familiaridade toda com os seus olhos.
Onde nasce a facilidade para ouvir a música de cada um dos seus sorrisos.
Onde nasce essa compreensão das coisas que revela quando cala.
Conta de onde vem a intuição da sua existência tanto tempo antes de nos encontrarmos.

Conta pra mim de onde a gente se conhece.
De onde vem o sentimento de que a sua história, absolutamente nova,
é como um livro que releio aos poucos e, ao longo das páginas, apenas recordo trechos que esqueci.
Conta de onde vem a sensação de que nos conhecemos muito mais do que imaginamos.
De que ouvimos muito além do que dizemos.
De que as palavras, às vezes, são até desnecessárias.
Conta de onde vem essa vontade que parece tão antiga de que os pássaros cantem perto da sua janela quando cada manhã acorda.
De onde vem essa prece que repito a cada noite, como se a fizesse desde sempre, para que todo dia seu possa dormir em paz.

Conta pra mim de onde a gente se conhece.
De onde vem essa repentina admiração tão perene.
De onde vem o sentimento de que nossas almas dialogavam muito antes dos nossos olhos se tocarem.
Conta por que tudo o que é precioso no seu mundo me parece que já era também no meu. De onde vem esse bem-querer assim tão fácil,
assim tão fluido, assim tão puro. Conta de onde vem essa certeza de que, de alguma maneira, a minha vida e a sua seguirão próximas,
como eu sinto que nunca deixaram de estar.

Conta pra mim por que, por mais que a gente viva, o amor nos surpreende tanto toda vez que vem à tona.


Ana jácomo

... é simplesmente lindo...


"Como sabem ser duros os caminhos, pelos quais a gente vai, só pensando na volta..."

"Qual o caminho da gente? Nem para frente nem para trás: só para cima. Ou parar curto quieto. Feito os bichos fazem. Viver... O senhor sabe:
viver é etcétera..."

Guimarães Rosa

"Ele disse: não chore que chorar enfraquece.
Eu disse: mas às vezes é como a chuva que se precisa quando tem estiagem demais e tudo fica muito seco." 
(Clarice Lispector)

“É errado pensar que o amor vem do companheirismo de longo tempo ou do cortejo perseverante. O amor é filho da afinidade espiritual e a menos que esta afinidade seja criada em um instante, ela não será criada em anos, ou mesmo em gerações.”
Khalil Gibran

A gente tem que morrer tantas vezes durante a vida,
que eu já tô ficando craque em ressurreição.
Bobeou eu to morrendo.
Na minha extrema pulsão, na minha extrema-unção, na minha extrema menção de acordar viva todo dia.
Há porradas que não tem saída, há um monte de "não era isso que eu queria".
(...)Há dores que, sinceramente, eu não resolvo.
Sinceramente sucumbo.
[Elisa Lucinda]

Te prometo isto. Te prometo deixar meu coração na palma da sua mão. 
Eu me prometo a você.” 

[Grey's Anatomy]