30 de agosto de 2013


Eu tenho acesso ao teu coração. Um aceso limitado, é verdade, só tenho uma  uma senha, justo teu coração tão cheio de senhas, e ela me leva apenas à um lugar que eu inventei pra mim, dentro de você. Caminho pela intuição, mas pode chamar de piração onde é sempre noite. Lá eu posso ver o teu céu. Está sempre encoberto, mas não de todo. Dá pra ver uma estrela. E umas nuvens que formam desenhos desconexos. Dá pra ouvir as tuas músicas e entender as tuas mágoas. Não é grande, porque eu nunca fui espaçosa, mas tem espaço o suficiente para armazenar tudo que eu acho bonito em você, e também para correr entre a brisa das tuas lembranças mais caras, de você menino, de você descobridor dos sete mares, dos ares e das cenas de amor por mim. Às vezes sinto um descompasso. Todo o teu coração bate diferente deste pedacinho que eu inventei pra mim. É doido porque é o meu sangue que corre nessas veias metafóricas, que detestam rejeição. É daí que eu vejo como é pequeno este espaço. Sinto-me invasora e me retiro. Decido não te ocupar mais, mas então, quando noites ou mesmo em fragmentos de dia que me conectam à você ocorrem, eu fecho os olhos e digo bem baixo a senha e tudo começa outra vez. Tenho esperanças. E ilusões. Penso que estou alargando meu domínio despercebido, porque sempre descubro alguma coisa nova. Tenho sonhos de que um dia desses, sem que eu saiba como nem o porquê, eu te acesso a outro pedaço de senha, e consiga entrar no seu coração, o seu mesmo, não este inventado por mim, e com a sua permissão, com a sua emoção, e mais até do que isso, com um chamado seu, eu amplie meu saber de ti.

28 de agosto de 2013



Quando era jovem, eu a mim dizia:
Como passam os dias, dia a dia,
E nada conseguido ou intentado!
Mais velho, digo, com igual enfado:
Como, dia após dia, os dias vão,
Sem nada feito e nada na intenção!
Assim,naturalmente, envelhecido,
Direi, e com igual voz e sentido:
Um dia virá em que já não
Direi mais nada.
Quem nada foi nem é não dirá nada.

(Álvaro de Campos.)

25 de agosto de 2013


O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...
(Fernando Pessoa)

19 de agosto de 2013

(...) Foi-me tão belo 
escutar-vos,
não digais que não,
bem sei que valeu a pena,
é por isso que o achei belo.
Não foi por isso,
mas deixais que eu o diga.
De resto, a música da 
vossa voz, que escutei mais do que
vossas palavras,
deixa-me, talvez,
só por ser música,
contente.
(Fernando Pessoa)


14 de agosto de 2013


 Eu queria, de verdade, colocar dentro de um saco as três perguntas "Por quê?", "Pra quê?", e "Até quando?" e pedir para uma criança bem fofa, bem pura e bem feliz fazer aquela brincadeira de encher, encher, até estourar.
(Tati Bernardi)



 
Vivo com a sensação de abandono, de falta, de pouco, de metade. Mas nada disso é novidade. Antes dele, teve o outro, o outro que continua indo embora para sempre porque nunca foi embora pra sempre. Eu não sei deixar ninguém partir, eu não sei escolher, excluir, deletar. São as pessoas que resolvem me deixar, melhor assim, adoro não ser responsável por absolutamente nada, odeio o peso que uma despedida eterna causa em mim. Nada é eterno, não quero brincar de DEUS.

(Tati Bernardi)


8 de agosto de 2013

Eu te peço perdão por amar de repente, embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos. 
Das horas que passei à sombra dos teus gestos, bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos. 
Das noites que vivi acalentando pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo. 
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
(Vinicius de Morais)




Pois é...
Não foi desejo, nem vontade, nem curiosidade, nem nada disso. Foi um choque elétrico meio que de surpresa, desses que te deixa com o corpo arrepiado, coração batendo acelerado e cabelo em pé. Foi sentimento. Não foi planejado, nem premeditado. Foi só um querer estar perto e cuidar, tomar todas as dores e lágrimas como se fossem suas. A vontade e o desejo vieram depois, nem depois. Não foi um lance de corpo, foi um lance de alma. Não foram os olhos, nem os sosrrisos, nem o jeito de andar ou de se vestir, foram as palavras. Uma saudade e uma urgência daquilo que nunca se teve, mas era como se já tivesse tido antes. Foi Amor. É AMOR.

(Tati Bernardi)